FASO DAN FANI

O faso dan fani está na história do país, Thomas Sankara, já o havia eleito como um dos símbolos da revolução, através do tecido pretendia promover a emancipação das mulheres (através do acesso ao trabalho e da renda adquirida pela confecção) e o desenvolvimento da produção nacional. « Usar o faso dan fani é um ato econômico, cultural e político de desafio ao imperialismo » dizia Sankara. Anos depois o atual presidente Roch Marc Christian Kaboré volta a colocá-lo em evidência. Kaboré, tem aparecido em público vestindo o pano que leva o nome do país do Burkina Faso, relançando a moda entre os políticos. Para a comemoração do dia das mulheres de 2016 ele pede que elas usem o pano "tradicional", assim são produzidos écharpes e pagnes (a palavra pagne pode ser entendida como pano, tecido ou como um pedaço de tecido usado amarrado) com a mensagem comemorativa. É importante notar que para datas especiais são produzidos metros de tecidos industriais por fábricas em grande parte chinesas com as tais mensagens comemorativas. Assim o pedido de Kaboré é uma tentativa de resistência à predominância de produtos chineses e industrializados importados.

Começo a procurar quem está por trás destes tecidos, encontro em um terreno à céu aberto sobre o chão de terra um grupo de mulheres trabalhando sobre teares de metal maiores do que aqueles que costumam trabalhar os tecelões tradicionais feitos com troncos de madeira. Os teares das mulheres produzem faixas largas, diferentes das bandas de em média 12 cm tecidas pelos homens. Este grupo de mulheres está ligada à uma associação maior estabelecida em um bairro vizinho, a COFATEX, Cooperativa Faso Textile criada em 2002 com apoio financeiro da ONG austríaca ONUDI (Organização das Nações Unidas para o desenvolvimento industrial), o projeto que deixou de receber o financiamento em 2005, não deixa de funcionar, já havia se tornado sustentável e passa a ser coordenado por uma associação de mulheres presidida por Mme Sakande Konate e seu braço direito, Mme Ilboudo Compaoré. A tecelagem em tear horizontal é reservada aos homens, mas Sakande explica que com a modernidade, as pessoas entenderam que as coisas precisavam mudar, as condições de vida pediam que a mulher também contribuisse com o rendimento familiar, e, afinal de contas, continua Sakande, este tear com o qual trabalham, maior e construído em ferro, não é como o tear tradicional, então, dessa forma, não é o mesmo tear reservado aos homens, sendo outro tear, pode ser usado por mulheres. Vale lembrar que o tear tradicional continua sendo de uso exclusivo masculino, mas, cada vez mais, as mulheres vão encontrando e ocupando seus espaços. Como diz um dos tecidos comemorativos criado para o dia das mulheres, « Homens e mulheres engajados na construção nacional », outro tecido produzido para o mesmo fim traz a frase « Acesso às mulheres a formação profissional e ao emprego » O tear de ferro usado pelas mulheres é introduzido no Burkina por Sankara, assim como o chamado aos homens para realizar as tarefas domésticas cada 08 de março e oferecer como presente à sua esposa um faso dan fani.

O incentivo lançado por Kaboré para o 08 de março de 2016 fez com que as vendas da COFATEX aumentassem permitindo que a associação se instalesse em um novo galpão. Sakande agradece a iiniciativa, e espera que 2017 seja ainda melhor. Cada vez mais pesquisadores e produtores do oeste africano afirmam que os tecidos e vestimentas denominadas tradicionais assim como seus modos de produção estejam em vias de desaparecimento, por conta da importação de tecnologias de produção mais rápidas, da produção industrial e barata asiática e por conta da globalização e das tendências de moda que atraem os jovens. No entanto, a experência em Bobo Dioualasso contradiz essa perspectiva, aqui a transformação artesanal do algodão atende uma população local orgulhosa do revolucionário Sankara, como é chamado por aqui. Nas sextas feiras, dia especial entre os muçulmanos, o entorno da mesquita antiga e as ruas ficam repletas de homens, crianças e mulheres ajoelhados em seus tapetes vestidos com a roupa cuidadosamente escolhida para esse momento. Independente do comércio turístico, o faso dan fani é produzido, consumido e vestido por burkinenses. O tecido vive no cotidiano e não apenas nas esposições dos museus. No entanto não podemos confundir a continuidade do uso de tecidos "tradicionais" com uma possível sociedade fechada para os intercâbios culturais. Os famosos wax, popularmente conhecidos como « tecidos africanos », porém industrializados e fabricados em grande parte fora do continente prevalecem como em outros locais da África. É importante lembrar que além de atraente é uma peça de valor muito mais acessível do que a produção artesanal.. Jovens usam jeans, algumas meninas ousam mini saias, e volta e meia uma jaqueta bomber traz nas costas estampada a imagem de Che Guevara.

Faso dan fani em dioula, língua local, significa vestimentas tecidas do Faso, (ou pano do país), são os tecidos de tear manual do Burkina Faso. Dioula é uma das principais línguas faladas na região, como o próprio nome da cidade indica, Bobo Dioualasso, são os Bobo (etnia) que falam dioula.

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