BOLSAS ESCULTURAS TAMACHEQUE


Marché N'Golonina é um mercado de artesãos próximo às margens do rio Níger em Bamako. Entre os corredores das pequenas lojas artesãos trabalham caixas de madeira decoradas com delicados desenhos e revestidas de couro de cabra tingido, o mercado é vivo, e o processo de criação pode ser visto a cada passo entre as estreitas ruas de terra. As caixas de madeira, assim como braceletes e bolsas fabricados através do mesmo processo fazem parte de um conjunto extenso e complexo de aparatos da cultura tamacheque. Facões decorados com capas de couro, espadas de Timbuctu, lanças, piteiras, celas de camelo, joalheria, amuletos. Cada peça vai muito além de sua função prática, o trabalho decorativo de gravura no metal, na prata, na madeira e no couro é minucioso. Além dos produtos recém criados o mercado oferece também peças de antiquário, são objetos raros e quanto mais antigo e usado, maior o valor.

No espaço de Mohammed um conjunto de bolsas tamacheque chama atenção. Cada uma delas, conta Mohammed é confeccionada pela sua mãe e pelas mulheres da sua família no Níger, seu país natal. As bolsas usadas principalmente pelos homens são verdadeiras esculturas em madeira revestidas de couro nas cores vermelho verde e amarelo, decoradas com franjas, e pintadas a mão. Abdul, primo de Mohammed, que possui uma loja em frente e que domina melhor a língua francesa traduz a conversa e explica que cada modelo de bolsa está relacionado à uma cultura e região do complexo tamacheque. Dessa forma nos encontros sociais e comemorativos do Saara a origem de cada um pode ser reconhecida pela forma, desenhos e cores da bolsa que leva pendurada no pescoço posicionada em frente ao corpo e não do lado como no costume ocidental. A bolsa não é o único meio de reconhecimento, os pingentes fazem igualmente parte desse aparato decorativo e identitário. Algumas bolsas são cobertas de espelhos usados para ver o próprio reflexo ou como escudo contra forças negativas. São diversos os amuletos, seja em forma de pingente, espelho ou gris-gris encobertos de couro que os homens levam sob o turbante. As bolsas, assim como outros objetos da cultura material de comunidades diversas da região são geralmente produzidas pela família da noiva e oferecidas à mesma. A produção de objetos funcionais e decorativos para o enxoval é uma forma igualmente de investimento, as peças funcionam como moeda de troca e podem ser vendidas ou intercambiadas quando necessário. Pergunto sobre a origem das bolsas que estão expostas no ateliê, a peça em formato quadrado com franjas pertence à região de Agadez, assim como a cela de camelo ao lado usada em conjunto com a bolsa. Abdul comenta que os detalhes em metal na cela são feitos no local por ele e outros homens, depois que as mulheres no Níger decoraram o couro. O modelo constituído por uma caixinha vermelha sobreposta por uma cobertura em verde que lembra uma escultura é originária de Tchntabarade, Abdul é de Abalak.

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