Bordado dogon


Em Bamako, capital do Mali toda procura por índigo aponta para o país dogon, forma popular de se referir à região habitada por esta sociedade. Os dogon, se tornaram conhecidos aos olhos do ocidente desde as controvérsas expedições e relatos do etnólogo francês Marcel Griaule. Os curtas exibidos no início das sessões dos cinemas franceses à propósito da cultura local e a divulgação da cosmogomia dogon e seus conhecimentos astronômicos a propósito da estrela Sírius atraíram inúmeros pesquisadores, curiosos e turistas impactando no cotidiano e na vida social e econômica da região, procurada desde então pelo etno turismo.

A presença de panos chamados índigo no comércio é relativamente frequente, principalmente nos mercados artesanais como o N'golonina e marché des artisans em Bamako. No entanto encontrar especialistas na produção de tintura natural índigo se torna cada vez mais raro desde a chegada do pigmento sintético, o processo natural vem sendo substituído por conta da praticidade e rapidez da nova forma de tingimento. Ao contrário do que eu imaginava encontrar, uma diversidade de artistas e associações trabalhando com o processo original, o tingimento natural com índigo parece estar praticamente desaparecendo.

No percurso desta busca conheço Pedro, um comerciante de pano índigo que assim como outros que estão no meio, afirma que com a modernidade as pessoas procuram a praticidade, a relação com o tempo é outra, apenas entre os dogon é possível encontrar especialistas trabalhando ainda hoje com a folha original. Pergunto à Levieux, um jovem guia dogon sobre a possibilidade de encontrar o processo na sua região. Ele explica que os tecidos produzidos para comercialização no geral são feitos com índigo químico ou misto, já que para obter o azul marinho, escuro, são necessários diversos banhos na tintura, então para agilizar o processo, um pouco de pigmento preto é adicionado. O índigo natural, conta Levieux, é feito para uso próprio, para panos à serem utilizados em cerimônias de casamento, por exemplo. A substituíção dos processos de tingimento parece normal, assim como na maior parte da mundo a industrialização ofereceu formas de produção mais rápidas que ocuparam os espaços dos fazeres artesanais e naturais. A consciência da importância da preservação ambiental e o apelo por desacelaração, no universo têxtil e fashion questiona as vantagens da praticidade e velocidade industrial, no entanto, ainda não oferece repostas de conciliação entre a retomada do artesanal, slow e natural e o sistema de mercado capitalista, visto que o faturamento é imprecindível para sobrevivência econômica. Dessa forma, as dinâmicas sociedades africanas, recebem também com entusiasmo as facilidades da modernidade. No entanto, se por um lado o processo de tingimento é acelerado, por outro, a criação das padronagens segue os mesmos processos manuais inicias. Cada desenho é formado por alinhavados à mão extremamente complexos e trabalhosos. A técnica consiste em costurar e vedar o tecido para que a tinta não penetre, criando nesse espaço preservado as padronagens em branco sobre o azul índigo.

A arte de estamparia e tingimento em índigo já era por mim conhecida desde minha primeira viagem ao oeste Africano, no Senegal, onde, na região sul de Casamance mulheres praticam a técnica. Porém no mercado artesanal de Bamako um tecido chama atenção, trata-se de um pano índigo bordado com linhas de lã em cores vibrantes. O vendedor conta que são panos dogon, pergunto a Pedro onde posso encontrar e ele me leva ao bairro onde mora sua família, Medina Koura. O local em si ja é especial, o bairro popular é um dos mais antigos de Bamako e reúne tintureiras, estampadores , costureiros, tecelãos. Pelas ruas grupos de homens e mulheres em pleno trabalho ao ar livre, ou em pequenos ateliês movimentam o local e os tecidos coloridos estendidos dominam a paisagem. Na calçada em frente à porta de casa duas mulheres vendem entre incensos e colares os panos que elas passam o dia bordando.

De origem dogon as irmãs Assitan e Aminata Tolo contam que os tecidos são feitos com algodão filado à mão pelas mulheres de sua região, em seguida os tecelãos produzem faixas de tecido no tear manual, as mulheres unem as faixas com costuras à mão montando o tecido que deve ser por fim tingido. Pergunto se elas tingem, rapidamente me respondem que não, assim como Pedro, não pertencem à casta dos tintureiros, são de linhagem nobre e não podem exercer tal atividade. O que elas fazem é bordar sobre o tecido tingido, pergundo se a atividade de bordadeira não é exclusiva de alguma casta : « não, o bordado é livre, todos podem fazer ». Entre os tecidos expostos na bancada dois processos de estamparia diferentes aparecem, o primeiro já mencionado acima, com costuras e o outro com vela. O processo de vedar espaço com cera de vela branca derretida pode ser feito à mão livre com pincel ou bastão, ou ainda com carimbos de madeira. Ambos os processos estão baseados no método de preservar espaços do algodão do contato com a tinta.

O trabalho de Assitan e Aminata se concentra no bordar sobre o pano índigo com cores como vermelho, verde, azul, rosa, laranja, tudo misturado. Os bordados são diversos, desde listras paralelas minimalistas até ricos bordados cobrindo grande parte da superfície do tecido, sobrepondo-se ao padrão em branco, refazendo todo o desenho ali estampado.

Assitan está bordando uma aranha, e compara o incessante trabalho do artrópode com a vidas das mulheres dogon, que segundo ela, trabalham do nascer ao pôr do sol todos os dias sem parar. A imagem da aranha está igualmemnte ligada ao ato de tecer criando um paralelo com o tecer da teia e do tecelão. É interessante o fato que Assitan borda com a parte de traz da agulha e não com a ponta, que segundo ela pica, o manuseio da agulha de forma invertida está relacionado à imagem da aranha. Assitan explica, a aranha é boa, não é má, é um bom sinal, de prosperidade. É comum conta Assitan bordar aranhas em panos e oferecer a jovens em idade de se casar, para atrair um casamento próspero, que garanta boa alimentação e vestimentas. Afinal a vestimenta, o tecido, é muito importante, Assitan continua, dizendo que durante toda vida você usa um tecido, ao chegar ao mundo é acolhido por um pano, ao partir sua mortalha é um tecido, tecido é proteção. Tecidos artesanais tradicionais são escolhidos para momentos especiais como nascimento, circuncisão, casamento e funeral, ou seja acontecimentos acompanhados de rituais que marcam passagens de etapas importantes da vida. Assim como o tecido e a aranha estão associados, e tem suas simbologias, a agulha em si também tem, sua função prática de unir as tiras de tecido é estendida as relações humanas. Assitan diz que a agulha é boa, a agulha cria a união e é oferecida à noiva tanto por sua função prática, como por voto de uma união bem sucedida entre a menina, o marido e a família do marido com quem ela irá a partir do casamento coabitar. O trabalho manual com a agulha evoca ainda a habilidade de ser paciente, não apenas na longa construção do tecido mas também nos relacionamentos, principalmente dentro da família estendida. É importante lembrar que a poligamia é uma prática comum, assim as mulheres convivem não apenas com a família do marido como também com as coesposas.

Outro bordado recorrente nas criações das irmãs Assitan e Aminata é o Kanaga, símbolo dogon que evoca o Deus criador Amma. Assitan diz que a forma do kanaga com os braços levantados para cima simbolizam a graça de Deus, assim como a união. O kanaga, que aparece também sob forma de máscara nas danças rituais foi estampado na bandeira do Sudão francês, das efêmeras República sudanesa (1958-59), e da Federação do Mali (1959-60) que brevemente agrupou o Senegal e a República sudanesa. O símbolo que evocava o universo dogon foi suprimido da atual bandeira do Mali, pois conforme explica Assitan colocava em evidência apenas uma sociedade, excluido todas as outras, e o objetivo a partir de então era a união.

Além da presença dos símbolos os tecidos recebem também nomes, Assitan mostra o pano Buraïrê, que é o nome de sua irmã Aminata Tolo em dogon, ela é a criadora do bordado sobre aquele tecido, assim o pano leva seu nome. Sua família, de sobrenome Tolo é de Kassa, na região de Mopti, é uma família de Iman (liderança islâmica), “na nossa casa somos notáveis”. Outro tecido recebe o nome Oumou Sangaré, cantora popular do Mali, que apareceu publicamente vestindo um tecido com a mesma padronagem. É relevante o fato de atribuir o nome de Oumou Sangaré ao tecido, a cantora e compositora é considerada embaixadora de Wassoulou*, sua criação, inspirada na música tradicional da região, é engajada na causa feminina e aborda temas como a liberdade de escolha no casamento.

Assitan volta a falar sobre as estampas e mostra uma peça que segundo sua explicação remete aos campos de cultivo de cereais dos dogon, que por sua vez são reconhecidos agricultores do Sahel. O desejo do etno turista ocidental de compreender cada imagem das sociedades africanas ou qualquer outra civilização por este considerada exótica desenvolve por sua vez no interpelado o hábito de oferecer respostas afim de saciar o desejo do curioso. Desta forma, ao mesmo tempo que a legenda, como diz Assitan é bem vinda, causa também certa desconfiança. Por outro lado, as significações apontadas não precisam estar necessariamente presas a um passado imobilizado, as atribuições de valor e simbologia oferecidas por Assitan podem estar inseridas no contexto de sua experiência carregada de sua história ancestral e sua existência na contemporaneidade. A atribuição do nome Oumou Sangaré ao pano parece ser um exemplo válido neste sentido, ao mesmo tempo que por sua vez, a cantora representa de certa forma o encontro entre a tradição, a contemporaneidade e a simbologia através de sua música e imagem. Voltando ao tecido estampado com os campos de cerais, de fato, a distribução dos padões lembram uma paisagem recortada por campos de plantio.

A consciência da mudança dos tempos está viva no discurso de Aminata ao discorrer sobre as transições no uso do pano índigo. Inicialmente o pano preto, como ela chama, ao contrário de azul, apenas os ocidentais chamam o índigo de azul diz Aminata, era apenas amarrado pelas mulheres em volta da cintura, é com a modernidade que vestimentas passam a ser costuradas com o tecido. A cor escura do tecido não é gratuita, continua Aminata, tem por objetivo esconder as impurezas das mulheres, uma mulher nunca usa um tecido em algoão cru, esta cor é apenas para os homens. Assim, as interdições e tradições vão revelando também seu lado prático lógico. Pergunto sobre o bordado sobre índigo, trata-se de uma prática antiga? Não, reponde Aminata, é contemporâneo, não data de mais de 20 anos, é uma forma de decorar os tecidos, para torná-los mais atraentes, para nós, assim como para a comercialização com o estrangeiro. A prodção têxtil local está atenta ao mercado internacional, ao consumo dos turistas pela arte local. Aminata afirma “ isso faz entruar dinheiro, para a mulher que cria, para quem vende e para o país. Assim entre intercâmbios e tradição, entre modernidade e ancestralidade a arte têxtil se renova e continua proporcionando, como dizem frequentemente nos mercados, o “plaisir des yeux” (prazer dos olhos).

*Wassoulou: região no Vale do rio Wassoulou, oeste africano, foi um efêmero império (1878 – 1898) pré colonial no fim do sec XIX, também conhecido como Império Mandinga, erguido pelas conquistas de Samory Touré e destruido pela força colonial francesa.

Fotos André Ricardo

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